Novas demandas e impactos no profissional de TI

Como já foi colocado nas seções anteriores, nas últimas décadas a função de TI nas
organizações teve um crescimento rápido, como resultado da intensa competição. Este
crescimento criou a necessidade de profissionias de TI mais especializados e com atribuições
mais complexas. Ainda, foi solicitado ao profissional de TI que interagisse com pessoas de
fora do departamento de sistemas de informação, possivelmente com culturas e expectativas
diferentes dos seus. Como resultado, os profissionais de TI podem ter sido submetidos à
cargas adicionais de tensão profissional e emocional (HUARNG, 2001).
A pesquisa anual de satisfação profissional de 2003 realizada pelo periódico norteamericano
Computerworld avaliou as opiniões dos profissionais de TI relativa a sua carreira
(Hoffman, 2004). A pesquisa avaliou como os profissionais de nível mais técnico se sentem
em relação aos seus gerentes, à cultura da empresa em que trabalham, em relação às
oportunidades de evolução profissional e acesso à novas tecnologias. De acordo com os
comentários de Hoffman (2004) sobre os resultados, esta pesquisa de uma forma geral indicou
que não há um entusiasmo em relação às perspectivas de carreira, embora os profissionais de
TI não demonstrem arrependimento em terem optado pela carreira em TI. A pesquisa constata
insatisfação com recompensas e na participação nas decisões. Revelou também uma
insatisfação crescente dos profissionais de TI em relação às empresas em que trabalham e em
relação às oportunidades de evolução na carreira.
Hoffman (2004) sustenta ainda que a economia fraca forçou um corte lento na força de
trabalho de TI. Com uma carga elevada de trabalho, pouco treinamento e uma falta de
confiança de suas empresas, os profissionais de TI estão se sentindo penalizados. Os diretores
de sistemas e outros especialistas em carreira afirmam que parte do descontentamento dos
profissionais de TI pode estar ligado a um efeito pós-bolha da internet, quando muitos
profissionais de TI eram remunerados generosamente. Atualmente, a palavra de ordem é
redução de custos e os empregadores estão fazendo uso do seu poder econômico.
Estas constatações podem favorecer a exaustão do profissional, em linha com os
trabalhos de Moore (2000) e de Huarng (2001). Diante da sobrecarga de trabalho, os
profissionais podem desenvolver um processo de síndrome de burnout, um estado complexo
de fadiga composto basicamente por três componentes (Maslach e Jackson, 1986 apud
Huarng, 2001): 1) exaustão emocional – ao chegar à conclusão de que não é capaz de atender
às demandas ou às responsabilidades, o indivíduo desenvolve um sentimento de frustração e
tensão; 2) despersonalização – representa a tendência de tratar as pessoas próximas como
objetos, apresentando um comportamento indiferente e cínico, sejam colegas de trabalho ou
clientes; e 3) autodepreciação – este componente causa a redução da autoavaliação e da
autoestima, a partir do credo de que o esforço do indivíduo não fará diferença.
Consequentemente, a iniciativa fica comprometida.
Hoffman (2004) sustenta que os profissionais de TI preferem estar envolvidos também
nos aspectos de negócio dos projetos de TI às tarefas focadas em TI pura. Esta é a razão por
estarem procurando uma especialização mais voltada para gerenciamento de projetos e
negócios. Mesmo assim, há dificuldade em realizar esta migração, pois uma vez que surge
uma oportunidade, as empresas preferem colocar pessoas com experiência a dar uma chance a
voluntários da área de TI.
Embora tanto as características do trabalho em si quanto do ambiente de trabalho para
pessoas que trabalham e que não trabalham em sistemas de informação possam a princípio
parecer diferentes, Ferratt & Short (1986) não verificaram diferenças significativas nos
padrões motivacionais destes grupos. Seu trabalho, realizado a partir de uma pesquisa com
1005 participantes de mais de 100 empresas de seguros dos EUA, focou a avaliação desses
fatores dentro de um mesmo grupo ocupacional. Concluem a pesquisa propondo cinco áreas
que podem gerar motivação nestes profissionais para adotarem um comportamento produtivo
no ambiente de trabalho, quais sejam:
• Orientação: compreende o entendimento claro do que é preciso fazer. A manutenção
de deste entendimento pode ser realizada através de uma comunicação periódica ao
funcionário sobre sua performance;
• Socialização: compreende a satisfação das necessidades sociais no trabalho. Como
resultado, o funcionário exibe maior interesse no trabalho cooperativo e na relação
com seu supervisor;
• Estima: refere-se à sensação de ser respeitado como pessoa e como funcionário e
receber reconhecimento ou recompensas pelos esforços no ambiente profissional;
• Realização: compreende estar ciente de que seus superiores esperam sua aplicação no
trabalho e estar a par da importância da sua contribuição para atingir as metas da
empresa;
• Poder: compreende ter e fazer uso de autoridade para tomar decisões importantes e ter
influência sobre os acontecimentos no departamento e na empresa.
No entanto, o estudo de Bartol e Martin (1982) defende que profissionais de nível
técnico e gerencial que trabalham com sistemas de informação apresentam necessidades
menores de interação social, o que pode comprometer o desenvolvimento das habilidades de
relacionamento interpessoal. Esta característica é mais facilmente compreensível na medida
em que o desafio que a profissão propõe está em grande parte associada à interação com a
máquina.
Segundo o estudo de Schambach (1999), os profissionais de TI com mais idade
apresentam uma tendência de queda da motivação para manter suas competências atualizadas.
Esta tendência pode estar relacionada com o pessimismo em relação a receber recompensas
organizacionais, sejam elas hierárquicas, funcionais, sociais ou financeiras. Schambach se
baseia em um documento do Departamento de Comércio dos EUA de 1997 para afirmar que a
tecnologia em mudança altera continuamente as competências requeridas para o sucesso no
trabalho ana era contemporânea, especialmente nas áreas orientadas pela tecnologia. A
manutenção da competitividade das organizações em ambiente desta natureza requer tanto a
consciência da necessidade de atualização quanto o desejo do profissional em colocar em
prática as soluções que as novas tecnologias oferecem.
O mesmo estudo comenta os múltiplos fatores que estariam causando uma redução de
oferta de profissionais de TI: 1) a demanda por profissionais especializados em TI é crescente
em função da maior dependência das empresas nas práticas de negócios baseada em
tecnologia. Este aumento de demanda está evidenciado pela expansão do uso da tecnologia na
vida diária do cidadão comum; 2) as mudanças na tecnologia são rápidas e da mesma forma
tornam obsoletas as competências sobre as tecnologias atuais; e 3) a quantidade limitada de
novos entrantes no mercado de trabalho de TI: uma quantidade menor de jovens tem
selecionado carreiras relacionadas a TI como opção profissional.
A obsolescência profissional é definida como a erosão das competências requeridas
para um desempenho de sucesso (DUBIN, 1990; FERDINAND, 1966; GLASS, 2000 apud
JOSEPH E ANG, 2001). A atualização regular das competências promove a empregabilidade,
o desenvolvimento profissional e as compensações financeiras. Assim, a rápida mudança da
tecnologia constitui uma ameaça potencial para os profissionais de TI (JOSEPH E ANG,
2001). De fato, o processo de obsolescência dos conhecimentos parece ser mais acentuado
para os profissionais de TI, já que “a estimativa de meia-vida dos conhecimentos e
habilidades na profissão de TI é de menos de dois anos” (ANG E SLAUGHTER, 2000;
DUBIN, 1990 apud JOSEPH E ANG, 2001).

TEXTO POR: Valter Moreno, Flavia Cavazotte e Eduardo de Farias

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